5 de janeiro de 2017

Liberté, Égalité et Fraternité: Revolução Francesa e o Feminismo

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Filósofos como Locke, Rousseau e Bentham foram influentes na Revolução Francesa. Eles pregavam que todos os homens deveriam ter os mesmos direitos perante a lei, e essa lei apenas entraria em vigor se existisse o consentimento dos homens da sociedade por voto. Embora esses teóricos discordassem de um ponto ou outro, o voto representava para todos o sinal mínimo de autodeclaração da nova sociedade civil.

A principal questão levantada pela Primeira Onda do Feminismo era o sufrágio, mas outras questões como o direito de propriedade, reforma do casamento e liberdade sexual também eram discutidas. As feministas acreditavam que o voto era o modo mais correto e prático para atingir todas as suas metas, pois com ele elas estariam inseridas definitivamente como indivíduos capazes.

Contudo, grande parte dos intelectuais da Revolução se colocou contra, acreditando assim que a mulher era um ser inferior e incapaz de tomar decisões. Locke, por exemplo, não incluía mulheres nas participações da sociedade civil. Considerava que, em uma disputa em família, cabia a decisão ao homem por ser a parte mais apta e forte, embora argumentasse contra a monarquia absoluta de Adão e a submissão eterna de Eva (personagens bíblicos).

David Hume
 (filósofo escocês) defendia um modelo extremamente tradicional, onde os homens são os chefes naturais do lar e as mulheres não participariam das relações morais e civis. Ele considerava que os homens eram os porta-vozes da família, concordando com Aristóteles, que defendia que existia virtudes as quais as mulheres deveriam ter, como castidade e recato, e afirmava que eram virtudes femininas as quais levariam a mulher a ser vista apenas como o sexo belo e frágil.

Rousseau, por sua vez, enquanto fazia duras críticas à educação em seu romance pedagógico chamado Émile, defendia que mulheres são naturalmente mais fracas e apropriadas para a reprodução e não para vida política. Com exemplos de Emílio e Sofia, ele defende que as mulheres devem ser criadas foras dos preceitos da razão, pois estas nasceram para serem submissas ao marido, criadas para o casamento e maternidade, não apresentando possibilidades de aprender conceitos científicos, Já os homens foram criados para serem fortes e ricos, devendo receber instrução cientifica. E ele continua sua defesa dizendo que mulheres deveriam aprender a estimular o desejo masculino e se apresentar socialmente como castas e recatadas. Em suas palavras, na família os homens deveriam governar essas frívolas criaturas.


Entra no cenário uma baronesa romancista que apesar de ter uma visão conservadora sobre a sociedade era uma feminista. Anne Louise Germaine de Staël
, mais conhecida como Madame de Stael, defendia que cada individuo teria o seu papel na sociedade, mas questionava o sexismo do seu tempo. Criticava preconceitos como por exemplo a dificuldade das mulheres serem inseridas na política e criticadas quando jovens sendo consideradas atrevidas e como senhoras, chamadas de repugnantes. Ela dizia que as mulheres eram sempre julgadas ao desejar o poder, pois com isso elas deixariam de ser o objeto de amor submisso.

Naqueles tempos e arrisco dizer nos tempos atuais, para algumas culturas a única paixão admissível para as mulheres, é o amor submisso e a maternidade.

Assim como Rousseau, Madame de Stael, considerava que as diferenças entre os sexos era resultado da natureza, sendo assim a natureza era culpada pela submissão feminina na sociedade, pois definiu seu destino na mesma. Como um fardo que a natureza deu para a mulher na qual considerava impossível ser feliz. Ela dizia: "Não só as mulheres são o que são pela natureza, como são também o que os homens desejam que sejam: elas são julgadas severamente quando ambiciosas porque os homens não veem qualquer tipo de utilidade geral em estimular o êxito das mulheres nessa carreira".

Logo surgiu outras mulheres para se posicionarem socialmente contrárias ao patriarcalismo imposto. Duas grandes personalidades foram Mary Wollstonecraff
 e logo em seguida Harriet Taylor Mill - seus maiores trabalhos foram produzidos em conjunto com seu esposo Stuart Mill.

Para alguns, as reformas realizadas na Revolução Francesa beneficiaram as mulheres por beneficiar os homens, mesmo que indiretamente. Mas o problema era evidenciado a cada momento em que a mulher era vista como uma coadjuvante de sua própria existência.

Reforçando o couro dos grandes iluministas e liberais da época, Auguste Comte, dizia que os cérebros das mulheres eram menores que os dos homens e que, portanto, as mulheres deveriam ser subordinadas. Já James Mill (pai de Stuart Mill) discutia o direito de todos os homens decidirem pelos seus próprios interesses em uma votação democrática mas achava que os interesses das mulheres seriam mais bem protegidos pelas escolhas dos homens. Até mesmo os socialistas da época que viviam por reivindicar completa igualdade para as mulheres, tendiam a envolvê-las apenas em uma aura de sentimentalismo e lideres espirituais, mas jamais das disputas civis e políticas.

Naquela época mulheres eram permitidas marchar pois suas vozes reforçavam a revolução, mas não eram cogitadas em papeis políticos responsáveis.

Inspirada nos pensamentos dos iluministas, a Assembleia Nacional Constituinte da França aprovou em 1789 a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, no qual descrevia em dezessete artigos idéias liberais da primeira fase da Revolução Francesa. Neste período as mulheres não eram vistas como indivíduos capazes no âmbito político, então elas não eram inseridas nem se quer citadas nessa declaração.

Então surgiu Olympe de Gouges, considerada uma das pioneiras do Feminismo Frances. Em meio a Revolução Francesa ousou criticar a Declaração pelo Direito do Homem e a situação da revolução e da mulher na sociedade. Em sua carta ela expunha que tal declaração negava a mulher igualdade de direitos. Acreditava que as mulheres deviam ter todos os direitos que os homens tinham, inclusive direito a propriedade e liberdade e serem indivíduos ativos na sociedade e na política.

"Se a mulher pode subir ao cadafalso, pode também subir a tribuna [...] Que vantagens vocês obtiveram na revolução? Uma desconfiança mais evidente, um desdém mais atenuado?'' Olympe de Gouges.

Olympe foi presa, julgada e em 1793 condenada a morte pelos seus feitos e dizeres. Naquele momento, o Sr. Pierre Gaspard Chaumette (procurador) aplaudiu a execução de varias mulheres e se pronunciou sobre: ''Virago, mulher-homem, a impudente Olympe de Gouges que foi a primeira a instituir as mulheres na sociedade, abandonando o cuidado dos seus filhos e sua família, tentou falar de política e cometeu crimes [...] São os seres destruídos imorais sob as leis de ferro vingador. E vocês querem imita-los? Não! Vai sentir e vai ser realmente interessante e digno de estima, pois você é o que a natureza pretendia que fosse. Queremos que as mulheres sejam respeitadas, é por isso que vamos obriga-las a respeitar-se.''

O único que se colocou a favor de Olympe e do sufrágio feminino foi o Marques de Condorcet, hoje reconhecido como o pai do feminismo.






Dicionário:
Virago: mulher de aspecto, inclinações sexuais e hábitos masculinos
Impudente: Que não contém ou demonstra pudor; despudorado



Links:
Direito da Mulher e Cidadã: http://migre.me/wiPJd
David Hume, sexismo e sociologia: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.2041-6962.1983.tb01513.x/abstract
Livro Émile - Rousseau : http://migre.me/wiPHx

https://chnm.gmu.edu/revolution/d/489/
https://fr.wikipedia.org/wiki/Olympe_de_Gouges
https://en.wikipedia.org/wiki/Pierre_Gaspard_Chaumette

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